Crise

           Alexandra era tão nova e tão cheia de vivências. Menina cheia de fé, quase sempre. Passara por dois episódios depressivos, e só tinha 21 anos, sabia bem como era estar no fundo do poço só não saberia os motivos exatos. Era muito ativa em sua Igreja local, sempre animada e contagiante para todos. Cantava, limpava, recebia, orava. Até que aos poucos foi sentindo-se tensa e cada vez mais cansada. namorava um rapaz interessante da mesma igreja, não sabia  exatamente porquê estavam juntos, mas minimamente se gostavam. Volta e meia quando ela parava pra pensar sobre o relacionamento, sempre vinha o medo de ter uma nova recaída e a família dele era muito tradicional, tivera medo do que poderiam pensar, e como iriam julgá-la, porque ela iria ser julgada, disso ela não tinha dúvidas. Será que o namorado a entenderia ? A aceitaria,  amaria e ficaria com ela nessa fase ou iria levar um pé no traseiro ? Muitas dúvidas, poucas certezas e o medo parecia querer engoli-la.
        Em um 10 de fevereiro, ela acordou com aquele peso habitual da depressão, aquele cansaço além do normal, e sim, ela havia chegado com suas cores preta e cinza pra variar. Com o tempo seu estado ficou perceptível e ela pedia incessantemente ajuda, mas não sabiam como fazê-lo, até mesmo sua médica parecia incapaz de ajudá-la. Em meio a crise depressiva ela passou no vestibular, foi tão triste e ela deveria estar tão feliz. Fez uma publicação no facebook, recebendo umas 100 curtidas que não significaram nada, só que talvez fosse uma pessoa querida. O retiro de sua igreja estava se aproximando e até algumas semanas atrás ela estava tão animada, não mais. O dia estava a porta e ela queria muito desistir, mas tinham muitas pessoas que ela teria que dar explicações,havia muitas pessoas que ela não poderia desapontar e a seu namorado também.  Ela sentia que não se encaixava no tipo de garota que ele gostava. “ Você deveria se arrumar e se maquiar mais.” Ela ouviu essa frase quando estava em suas piores fases depressivas, foi difícil encarar o espelho depois daquilo, de tamanha falta de sensibilidade. Enfim, o fatídico dia chegou e estava Alexandra lá,fingindo minimamente uma animação, parecia que adivinhava o que lhe esperava.
       Aquele retiro durou exatos 5 dias de carnaval, dias que não passavam, dias caóticos, dias sombrios. Ela mal conseguia conversar com suas colegas de quarto e quando dava a hora de acordar para estar no culto (por volta de 7h), tudo o que ela queria era dormir mais um pouco, mas logo pensariam que ela estava ‘com demônio no corpo’por não querer participar. Tinha uma espécie de ritual para não esquecer nada. Acordava e tomava banho, tomava seu antidepressivo ( que não estava adiantando nada) e ia para o café, não podendo esquecer dos óculos escuros para não encarar as pessoas, algo no seu olhar a envergonhava. No café, pra ela era um pão enorme, a boca estava seca e muitas vezes não conseguia tomar café direito, algumas vezes depois vomitava, provavelmente efeito do remédio, sentia-se fraca demais, as manhãs eram terríveis. Alguns dias teria que fazer o backing vocal do louvor, e isso era excruciantemente difícil, as pessoas olhando pra ela, a voz arranhada, as expressões...não teve nenhum momento em que ela se sentiu relaxada naquele lugar. Se sentia extremamente observada e realmente era, não estavam acostumados com uma Alexandra tão distante. Ela queria gritar, ela queria chorar, ela não conseguia. Passava o maior tempo ao lado de seu namorado, parecia que conseguia se esconder atrás dele, sentia-se protegida minimamente. Os dias se seguiam, segunda...e a quarta nunca chegava, ela queria muito mas muito ir embora, sentia-se sufocada, nas festas..quando não estava tentando disfarçar sua doença ( tem como?), procurava um canto para se isolar. Meu Deus ninguém percebia? Ninguém fazia nada.
      A quarta finalmente chegou e só de pensar que ela teria de fazer e desfazer as malas, faltavam-lhe forças. Nenhuma amizade feita, nenhuma história boa para contar. Na quinta-feira meio desesperada ligou pra sua terapeuta pois estava pior, talvez toda aquela pressão no retiro a tivesse feito muito mal. Ela foi conversou e mesmo assim resolveu tomar alguns remédios na tentativa de talvez morrer...era só um grito de socorro, ninguém conseguia ver ou sentir a dimensão da sua dor. Colocou uns 8 comprimidos na boca logo depois tentou cuspi-los, ficou meio grog e ainda assim dirigiu. Contou para a família e não sentiu o apoio que queria, o abandono dilacerava sua alma. Aos poucos ela foi melhorando com a troca da medicação mas Alexandra mal sabia que sua luta estava apenas começando...

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