Crise Precoce

     Alexandra completou 16 anos de vida e ainda estava nos eixos. Talvez. Adolescente mais assídua de sua igreja, ia de 4 a 5 vezes por semana. Será que ela sentia tanto prazer quanto dizia ou utilizava a igreja como uma fuga? De sua família, de seu sofrimento, de seus defeitos. É como se ela tivesse um pequeno aneurisma, ele foi crescendo lentinho, ninguém percebeu.. Todos a admiravam. Que menina cheia de fé! Madura, 16 anos, nem parece! Expressões comuns de se ouvir. 
     A menina sorridente sempre tinha mais dúvidas que sorrisos, era uma mente hiperpensante, sem dúvidas. Também tinha obsessão por fazer tudo absolutamente certo, nem uma vírgula poderia dar errado, senão a culpa já vinha lhe dando um abraço forçado.Sem perguntar se ela queria e merecia realmente toda aquela culpa. Então ela orava e lia a Bíblia sem cessar.
    Guardava um medo muito intenso. Medo de enlouquecer. Algumas pessoas em estados ansiosos frequentemente relatam essa fobia, medo de enlouquecer, de perder o controleEla esteve no controle por tanto tempo, segurando pro seu aneurisma não sangrar que ele rompeu de uma vez só. Paff! Estourou, e ela não sabia o que fazer. Dia após dia, cansada, com medo, indisposta. Ir à igreja já não era mais tão legal, nem orar, ler a Bíblia, muito menos ouvir louvores, na verdade, tudo se tornou perturbador. Dormir sim, era muito bom, e ela dormia e pensava e tinha medo. Posso enlouquecer? Vão acabar me internando no "Pinel". 'Acho que já enlouqueci, já que nada faz sentido, viver não faz sentido mais, não acredito em mais em nada do que vivi até hoje.'


     Ale  tinha um amigo, quase um irmão, ela achava. Desabafou, falou tudo pra ele. Depois de uma longa conversa ela ouve apenas que isso poderia ser apostasia pessoal.Ela foi de imediato em sua enciclopédia bíblica ler sobre apostasia pessoal, seu amigo era quase um deus pra ela, então levava tudo o que ele falava a sério.Alexandra se prendeu às últimas frases em que dizia que às vezes a pessoa pode chegar num estágio tão longe de Deus de apostasia (abandonar a fé) que ela não volta mais porque aí já pecou contra o Espírito Santo e é o único pecado em que a Bíblia diz que não há perdão.
   Começou um quadro de depressão psicótica (ideia fixa, incontestável), em que ela jurava que tinha cometido aquele pecado porque ela se identificava com tudo, e além do mais tinha xingado Deus em sua cabeça.E ela só falava nisso. Acordava com pecado contra o Espírito Santo. Dormia com pecado contra o Espírito Santo. Comia com o pecado contra o Espírito Santo. Tudo na vida dela passou a girar em torno disso e todos que a amavam ficaram muito preocupados.
   Foi parar num consultório psiquiátrico pela primeira vez. Chegou, sentou, olhou pro médico, deveria ter uns 50 anos e pensou. "Como eu vou explicar pra ele que eu cometi um pecado imperdoável? Ele não vai entender, deve ser ateu e vai me passar medicações fortíssimas." Alexandra inventou alguma coisa, desânimo apatia, o que não era mentira mas não era a verdade. Saiu de lá com receitas de calmante natural e "vitamina para o cérebro". Sua mãe entrou em contato com uma psicóloga de sua igreja que talvez pudesse ajudá-la mais. E como ajudou, por muitos anos que se seguiram.
    Era uma manhã de sábado, Alexandra chorava mais um dia se lamentando pelo pecado imperdoável imaginário. A verdade é que ela não se perdoava, não se aceitava com toda a sua humanidade, tinha uma necessidade de flagelo intensa. Precisava pegar a pior parte e dizer que aquilo fazia parte dela. Talvez a psicologia explicasse. Sua mãe telefonou para a psicóloga Ana:
"- Ale, vem cá conversar com a Dra.
- Pra quê, mãe ? Meu caso não tem jeito, já era, não vai adiantar !
 - Oi, Alexandra, sou Ana, psicóloga..Como vc tá, posso te ajudar ?
 - Não, não pode,meu caso não é de médico, é que eu pequei contra o Espírito Santo, é imperdoável, não tem jeito.
 - Tudo bem..mas vem cá pra gente conversar um pouco.
- Tá, não vai adiantar...
 -  Mas vc entende isso de pecado contra o Espírito Santo?
 - Entendo, entendo.Tô te esperando."
    Alexandra, simplesmente não se lembra mais como foram as consultas ao certo. Lembrava vagamente de alguns momentos.  Chegou a conclusão que a depressão causou uma espécie de apagão em sua memória.
{Continua..}

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